Mas nada era para sempre. No meio dos nossos sorrisos, ela surgiu e te chamou. Ali parada, nos olhando, a sua expressão dizia muito mais que palavras; você estava irritada, demonstrava insatisfação. E você, meu amigo, nem se despediu; correu para os braços de sua amada e a abraçou. Ela me olhou profundamente, e você se virou e se despediu com um tchau — ou um adeus.
Caminhei sozinha até o prédio. Subi as escadas com o peso de cem anos no meu corpo. Enquanto subia, pensava na minha vida; então tomei uma decisão. Foi quando, no meio da escada, estava o Julian a me esperar, sentado sobre o degrau. Quando ele me avistou, se levantou. Fui pega de surpresa, nem sabia como reagir. Ele me abraçou e segurou a minha mão; pensei em me desprender, mas fui aceitando suas mãos entrelaçarem meus dedos. Fomos caminhando até meu apartamento e, ao abrir a porta, ele me roubou um beijo e ali resolvi me dar uma nova chance.
Era por volta de três horas da manhã quando a campainha tocou. Me levantei às pressas, estava sonolenta. Abri a porta do jeito que estava e me deparei com você, desesperado e ofegante. Só me olhou, e quando pensou em dizer algo, se deparou com o Julian. O silêncio fez moradia e, depois daquele dia, as nossas páginas foram reescritas.
Nos encontrávamos no trabalho, nos corredores e nas ruas, e falávamos apenas quando queríamos falar; nos evitávamos até nos elevadores. Por isso eu pergunto: quando foi que tudo começou? Foi quando nos perdemos ou foi quando fomos roubados?
E hoje?
Eu trabalhei até mais tarde e, quando saí, me deparei com você. Fomos pegos pela chuva intensa que caía; ela nos prendeu. Presos na porta do prédio da empresa, esperando o tempo cessar. Ali, só a chuva caía do céu; o silêncio era o único conforto. Por fim, o tempo passava e aquela chuva parecia não ter fim. Decidi, então, tirar os sapatos e caminhar na chuva; segui em direção ao ponto de ônibus. Quando estava bem distante, olhei para trás e você estava ali parado, inquieto, olhando apenas a chuva.
Ao chegar no ponto de ônibus, me sentei e fiquei ali descalça. O vento que passava me congelava. Não avistava ônibus, apenas luzes. A chuva foi cessando enquanto esperava. Quando pensei em desistir e resolvi chamar um táxi, você chegou. Me cobriu com seu casaco e me fez sentar novamente; ali se sentou ao meu lado. Por que tudo estava como aquele vento frio? Ali pensei em te perguntar: por que fizemos do silêncio uma escuridão? Mas eu tinha medo até de perder o silêncio.
"Conteúdo autoral baseado em uma linha de pensamento particular. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução total ou parcial deste conteúdo sem autorização prévia por escrito de Laise Leite."
"Sinta-se à vontade para compartilhar suas opiniões nos comentários. Este espaço é uma expressão da minha subjetividade e não tem a pretensão de interferir na sua verdade individual ou crenças pessoais."

Nenhum comentário:
Postar um comentário