quarta-feira, 21 de setembro de 2022

Estação de Trem 1998- Capítulo V

A Estrada da Verdade

Tantas coisas aconteceram depois daquela decisão. Nos casamos, tivemos outros filhos, mas a culpa morava dentro de mim; cada vez que olho para nosso filho, sinto-me a pior pessoa do mundo. O Julian nunca aceitou a forma como terminamos. Passamos um tempo sem nos falar, mas, depois de alguns anos, conseguimos nos olhar e nos cumprimentar. Ele nunca conseguiu se casar e nem teve filhos; acredito que a minha culpa pesava mais pelo fato de eu me sentir a pessoa que destruiu e tirou dele a única coisa que o faria feliz: o nosso filho, Bryan.

O Bryan tinha a cor dos olhos do Julian, azuis como o céu. O Julian nunca o tinha visto em nenhuma ocasião enquanto esteve por aqui na cidade, mas, no dia vinte de outubro, tudo aconteceu de forma inexplicável. Enquanto o Bryan ia para a faculdade, seu carro quebrou no meio da estrada e o único carro que passou, no exato momento, foi o do Julian.

O Bryan estava se tornando um homem admirável; a cada dia ele nos surpreendia nos detalhes, suas qualidades encantavam. O Henrique tinha um apreço muito especial pelo Bryan, eles eram muito unidos e possuíam uma conexão genuína. Mas todo o nosso círculo estava por um fio de desatar o nó; aquela estrada rompia as nossas mentiras de dezoito anos. Quando aquele carro parou em frente à minha casa e o Bryan desceu, seguido pelo Julian, meu coração acelerou. Eu perdia as forças. O Julian me olhava profundamente nos olhos, e foi quando o Henrique abriu a porta e se deparou com o nosso maior segredo.

O Bryan apenas disse: — Mãe, este é o senhor Julian, ele me ajudou na estrada, o meu carro quebrou.

Me segurei para não desabar e, quando o Bryan passou por mim, as lágrimas escorreram. Sem dizer nada, o Henrique agradeceu ao Julian, que, parado, observava surpreso toda aquela situação inesperada. Ele não disse nada, apenas entrou em seu carro e dirigiu.

A culpa nos cercava. Peguei as chaves do carro e dirigi até a praia, onde sabia que encontraria o Julian. Quando ele me avistou, esperou até que eu me aproximasse. Quando, por fim, cheguei perto, ele me disse:

— Sempre fiquei imaginando como seria ver uma criança correr pela casa, os seus primeiros passos, a primeira vez no colégio e quando ele me contasse suas histórias. Sempre tive inveja de todos, até tive de você. Eu nunca procurei ver os rostos de seus filhos; mesmo depois de tudo o que aconteceu, acreditei que você fosse verdadeira. Mas hoje eu descobri que não bastavam as decepções daquela época, ainda teria mais.

 Autora Laise Leite

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