quarta-feira, 21 de setembro de 2022

Estação de Trem 1998 - Capítulo I


Estendi a minha mão sem ao menos entender as ações. Foi quando, de fato, me surpreendi.

Ele foi colocando um anel em meu dedo, sem dizer nada. Suas ações e o seu olhar transpassavam calma e sinceridade; uma serenidade de que tudo estava bem e de que ali era o meu lar. Ele não disse nada, somente sorriu e segurou minha mão firme, e então caminhamos. Acho que foi uma maneira de expressar seu amor, entregando ao mundo a sua verdade.

Entre todos os sentimentos que sentia naquele momento, me entreguei à felicidade: meu melhor amigo agora era o meu amor. A surpresa dos detalhes me tomava o fôlego. Os pensamentos e as dúvidas me cercavam: quando começaram a surgir esses teus sentimentos? E quando eu comecei a transparecer os meus? Quando foi que comecei a gostar de você?

Sempre levamos nossa amizade tão a sério; tínhamos esse elo que nos prendia um ao outro, éramos como complementos de uma fórmula. Tivemos nossas paixões e partilhamos desses nossos desencontros. Será que percebemos isso no seu último relacionamento, ou foi quando trocamos um beijo naquela brincadeira entre amigos?

Nos perdemos e nos encontramos. Nada mudou desde aquele dia, nossa amizade era a mesma, mas, volta e meia, eu pensava em você e te via, todos os dias, partilhar amor com outra pessoa. Cheguei a pensar que estivesse ficando louca, de me deixar levar por essa obsessão. Que sentimentos eu tinha por ti? Quantas vezes me questionei? Não sabia responder nenhuma pergunta; só me deixei levar, levar a minha vida, a minha rotina e sustentar a nossa amizade do nosso jeito.

Mas, aos poucos, senti que a distância fazia moradia e a amizade ia se perdendo. E quando chegou a primavera, eu te revi. Quando saía de casa, me deparei com você no mesmo corredor, com ela. Estávamos tão perto, e existia um abismo entre nós. Nos falamos naquela manhã e eu segui adiante. Desci as escadas e caminhei pensando como foi estranho te rever. A solidão me tomou o peito.

Caminhei até a padaria e, enquanto pedia os pães, eu me perdia em pensamentos aleatórios; sei lá o que acontecia comigo. Quando dei por mim, falava sozinha. As pessoas me olhavam, e o padeiro ficou ali, me esperando sair do meu mundo aleatório. Pedi desculpas e, mais uma vez, enquanto pagava o pão, eu me perdi. Saí da padaria naquela manhã, envergonhada.

Caminhando de volta para casa, eu só queria esquecer meus constrangimentos alheios, e foi então que, de repente, surgiu uma chuva no meio do caminho. Comecei a correr, tentando me esquivar e tentando não molhar os pães; tentava apenas proteger a sacola. Enquanto corria para fugir daquela chuva, eu não sei... só me vi, de repente, no chão, após escorregar. Caí, ralei os dois joelhos e os cotovelos. Os pães caíram no chão. Eu estava encharcada da poça de água suja.

Fui tentando me levantar aos poucos, do susto, e continuei a caminhar na chuva até chegar em casa. A cada passo, subindo as escadas, eu me sentia envergonhada e cheia de dor. Só queria chegar em casa depressa e tomar um banho. Comecei a chorar e não sabia mais o que doía em mim; me vi como uma criança separada da mãe.

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