quarta-feira, 21 de setembro de 2022

Estação de Trem 1998 - Capítulo IV

 O Segredo Selado

Você pegou meus sapatos e os calçou em meus pés. Enquanto eu tremia de frio, você me levantou e apenas me abraçou para me aquecer. De repente, avistei o ônibus, mas você não me desprendeu de ti nem por um minuto. Entramos no ônibus e você sentou-se ao meu lado. Eu espirrava; você colocou minha cabeça sobre teus ombros e deixou o nosso ponto passar despercebido. Descemos bem distantes de casa e, enquanto caminhávamos, você segurava minhas mãos. Quando chegamos no prédio, cada passo ao subir as escadas era uma despedida, até que dissemos, finalmente, um tchau.

Entrei no apartamento e o Julian não estava lá. Em cima da mesa, havia um bilhete informando que ele precisou fazer uma viagem urgente. No dia seguinte, no caminho do trabalho, eu te encontrei e nos cumprimentamos. Pegamos aquele elevador sozinhos e você o direcionou para a cobertura. Eu fiquei completamente confusa. Quando, por fim, o elevador parou, você segurou a minha mão e me arrastou até aquele vazio, aquele silêncio longe do mundo e à vista do Deus que habitava o céu.

— Eu só me permiti.

Aquele dia nossas vidas mudavam e começamos a caminhar juntos. Meus medos permaneciam a crescer dentro de mim. “Estávamos namorando”.

Mas, ontem, tudo mudou. Comecei a sentir um incômodo e uma exaustão. Enquanto eu lavava o rosto no banheiro, meu celular despertou e veio a seguinte lembrança: aniversário do Julian. Fui tomada pela dúvida e pela ansiedade. Na hora do almoço, fui até a farmácia e comprei um teste de gravidez. De volta ao trabalho, corri para o banheiro; lá, eu queria tirar o peso que habitava dentro de mim. Enquanto eu esperava, o coração se torturava...

Tomei coragem e abri os olhos. Deparei-me com o resultado; as lágrimas escorreram com a notícia inesperada. Respirei fundo e tentei me controlar. Voltei para o trabalho e, assim que terminei o expediente, saí às pressas. Peguei um táxi em sentido à clínica e lá, mais uma vez, escutei o que já sabia. Tentei me acalmar, mas só conseguia chorar. Meu telefone tocava sem parar e eu apenas deixei passar todas as ligações, até chegar em casa. Lá, na porta, estava você a me esperar.

Você me segurou e me trouxe para o teu apartamento. Eu não conseguia dizer nada. Quando você me perguntou o que eu tinha, abri a bolsa e retirei o exame. Você abriu e, lendo o resultado, me abraçou. Nunca tinha te visto chorar daquela maneira. Me desprendi de teus braços e olhei em teus olhos, e você me pediu para não dizer adeus. Me fez prometer que eu nunca contaria a verdade; que caminharíamos juntos e que você seria o pai do meu filho. Eu apenas aceitei omitir toda essa verdade. Esse era o nosso maior segredo.

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