Ele encostou o carro e ali eu não pude mais adiar aquela conversa. Disse-lhe toda a verdade; eu precisava limpar meu coração:
— Julian, quando descobri que estava grávida, fiquei desesperada. Não sabia o que fazer, se deveria te contar, se você iria querer. Fiquei confusa, sem saber se você voltaria. Não queria destruir sua vida. Passou tanta coisa pela minha cabeça... Mas acabei destruindo mesmo assim. Me arrependo, mas, ao mesmo tempo, não. Lembre-se de que você nunca lutou por mim; talvez a minha escolha tenha sido a melhor para você na época. Me apaixonei pelo Henrique sem saber quando começou, e o amei até o dia de sua morte. Eu o respeitei pelo homem que foi para mim e para as crianças.
— E hoje? O que você sente?
— Eu sinto medo. Sinto-me cobrada, totalmente sufocada. Mesmo depois de tanto tempo, meus ex-sogros me tiram a paciência. Mas vai ficar tudo bem em breve.
— Eu não consigo te odiar — ele começou —, mesmo depois de tudo o que ocorreu. Te rever naquele dia foi como acender a chama que ardia dentro de mim; foi como a primeira vez que te vi no colégio. Só eu sei o quanto suportei todo esse tempo tentando compreender tudo. Você foi uma decepção, mas eu nunca conseguia sentir raiva. Meus sentimentos só cresciam; quanto mais longe eu estava, mais pensava em você. Quando você disse que nunca lutei por nós dois, é verdade. Eu tinha medo de não ser suficiente, de não conseguir te fazer feliz como você merecia. Eu vivia na minha escuridão; tinha medo de te perder e, ao mesmo tempo, não queria te prender. Mas eu te perdi e sofri muito. Segui minha vida me sentindo culpado, mas, depois que o tempo passou, achei que havia superado. Ao retornar para esta cidade e encontrar o Bryan, despertei um sentimento que nunca havia tido. É injustificável qualquer coisa que tente me dizer, mas meu coração, mesmo partido, não consegue deixar de amar você. Minha maior loucura era você. Eu tinha raiva e amor; tinha gratidão e mágoa.
Ele fez uma pausa, olhando para o horizonte, e continuou:
— Minha felicidade me preocupava e eu tinha medo de não conseguir o amor de alguém que viveu longe de mim. Escolhi perdoar você porque você me deu um sentido para viver todos os dias. Conhecer o Bryan despertou um sentimento que nunca imaginei. Tenho raiva do Henrique; ele tirou de mim a minha conexão paternal, ele me apagou. Construir isso com o Bryan será árduo, mas eu enfrentarei. Não consigo ficar longe dele um instante sem sentir saudade. Te rever sempre me causa dor — pelo amor e pelas mentiras do passado — mas estou tentando ser firme comigo mesmo. Meus pais nem acreditam sobre o Bryan. Você negou a existência dele e arrancou a nossa chance de vivermos juntos. Não é tarde, mas não posso voltar dezoito anos e acompanhar o crescimento dele. No entanto, vou tentar ser o pai dele hoje, amanhã e até quando eu estiver aqui.
"Enquanto houver nós dois, que possamos respeitar o nosso espaço e dar o tempo que for preciso. Eu acolhi, com o mesmo amor, todos os seus filhos e quero estar presente na vida deles; não quero substituir ninguém, só quero estar lá. Eu continuei te amando e vejo em teus olhos uma dor imensa e um desejo de se permitir. Faça o que seu coração deseja. Eu estarei aqui te esperando, como naquela estação de trem em 1998."
"Conteúdo autoral baseado em uma linha de pensamento particular. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução total ou parcial deste conteúdo sem autorização prévia por escrito de Laise Leite."
"Sinta-se à vontade para compartilhar suas opiniões nos comentários. Este espaço é uma expressão da minha subjetividade e não tem a pretensão de interferir na sua verdade individual ou crenças pessoais."

Nenhum comentário:
Postar um comentário