domingo, 23 de novembro de 2025

Tempo Paralelo - Entre o Vinho e Whisky -1

 -Eu, você uma garrafa de vinho uma garrafa de Whisky. E nada mais.

Ali estávamos, frente a frente, sem intenções. Apenas um momento livre, preenchido por conversas aleatórias, risos soltos e sentimentos vagos. Um tempo paralelo, longe do nosso mundo, descobrindo segredos e deixando a intimidade aflorar. A cada copo, eu me perdia na minha própria covardia e o tempo se arrastava lentamente. 

Você se perdia olhando para o teto da sala, um olhar distante. De repente, sorria, em gargalhadas sem sentido, como se recordasse algo gostoso de sentir. Eu, por outro lado, chorava  de saudade do que perdi quando criança. Éramos dois adultos tentando apenas se entregar ao desejo de se apoiar, mas sem dizer, sem abraçar. 

O dia era longo, assim como aquelas garrafas. Brindamos sei lá quantas vezes. O charuto que você pegou na escrivaninha cobria a sala de fumaça. Você correu para abrir a janela, mas por lá ficou, sentado com os pés jogados para fora. Parecia que eu te via pela primeira vez, como o real. Você estava, por horas, exercendo seu livre arbítrio; já eu estava na minha própria prisão. 

Fui encher minha taça de vinho e, quando me deparei olhando para minha própria mão, um anel dourado me remetia ao presente que eu queria esquecer. Me afoguei naquele copo, caí no sofá e comecei a cantarolar canções que me vieram à cabeça. Você na janela, calado, só sentindo o vento soprar. 

Estávamos ali destinados. Só desejamos que aquele dia tivesse sido eterno, mas era curto. As garrafas iam se esvaziando e eu já não queria mais ficar sóbria. O telefone, que não parava de tocar, foi desligado. Você saiu da janela, caminhou até a adega, pegou o vinho do seu casamento e colocou sobre a mesa. Abriu-o com toda a vontade, encheu nossos copos e pediu para brindarmos como se não houvesse o amanhã. Bebemos até você adormecer. 

Fiquei te olhando dormir intencionalmente, porque no final, não sabíamos o peso da dor um do outro. Era tudo sem medidas. As lágrimas escorriam e então liguei o celular: lá continha 22 ligações dele e mais 40 mensagens deixadas. Ali eu compreendi que não existe o amanhã para quem já traçou seu final. Aquelas gotas de álcool acabaram. Minha esperança se esvaiu, e então a lucidez me atingiu. 

Sobre a mesa, deixei um bilhete, não como lembrança, mas como agradecimento. Abri minha bolsa e tirei uma garrafa de vinho envelhecida, um presente que tinha comprado para você. 

Nem tudo era para ser, mas já aconteceu como escolhemos que fosse. Então que possamos viver sobre as perdas e sobre os ganhos. Você foi a energia que eu precisava para me conectar. Espero que de alguma forma eu possa ter sido algo assim. 

Enquanto estava no elevador, chamei o táxi. Caminhei até o carro e, antes de entrar, olhei para o alto, vendo de longe seu apartamento. Da janela, você me olhava. Nos despedimos sem dizer adeus uma única vez. 

E hoje, após dez anos, eu te reencontrei! 

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