Naquela noite, as meninas me chamaram para jantar, pois a Michele havia retornado da lua de mel. Eu estava tão cansada, mas mesmo assim fui brindar com elas. Não era um encontro só de meninas, era uma reunião de amigos próximos. Naquela noite, senti-me uma estranha por não partilhar de contos antigos deles; não fiquei com inveja nem com raiva, só me senti fora da caixa, mas ria junto com todos.
Houve um momento daquela noite em que fui ao banheiro e lá demorei; acho que descobri um refúgio no sofá em frente ao banheiro. Minha fuga não ia ser notada, queria só um momento para respirar. Mas foi quando ele chegou e me viu lá, rindo com vídeos aleatórios. Levantei-me como se tivesse que dar satisfações, voltei para a mesa, sentei-me e retornei a partilhar de assuntos diversos.
Mas foi no mais tardar daquela noite que algo mudou. O cara de quem eu gostava apareceu para cumprimentar o ruivo. Meu coração quase saiu pela boca, mas me controlei. No fundo, ele sabia que eu tinha uma admiração por ele, mas ao mesmo tempo em que me ignorava, deixava explícito que não iria se fazer presente nos momentos em que eu esperava. Engoli seco aquela noite. Quando ele resolveu sentar à mesa, o clima mudou, mas não ia durar muito naquele ambiente.
As provocações começaram quando ele começou a passar o pé no meu embaixo da mesa. Os olhares me intimidavam; disfarcei até bem, mas não queria mais ficar ali fazendo parte de um jogo do Ryan. Levantei-me e pedi licença para fazer uma ligação. Fui ao banheiro, chamei um táxi, passei no balcão, paguei minha conta e saí pelos fundos do restaurante. Entrei no táxi e mandei uma mensagem para a Mi dizendo que surgiu um imprevisto. Pedi para o carro parar na praça em frente ao prédio em que eu morava e lá fiquei, me recordando de como sempre foi bom ser criança no balanço, pensando na vida como se o tempo fosse um guia.
Entrei no condomínio e, subindo as escadas, parecia que um peso tomava conta de mim. Comecei a chorar sem saber o motivo e entrei em casa sem querer sair no dia seguinte. O dia seguinte ia ser um feriado, então ia ficar no meu canto; não queria ver ninguém. Adormeci no chão, jogada, como se aquele fosse o meu melhor lugar.
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