O carro seguia pela avenida. As luzes dos postes riscavam o asfalto, e o meu corpo, entregue ao cansaço, distraía-se olhando o mundo através da janela. Eu estava no banco do passageiro quando o sinal fechou. Foi um dia comum, até que tudo aconteceu.
Uma moto parou ao nosso lado. O motociclista parecia tão concentrado em seu destino que parecia perdido em si mesmo. De repente, ele virou o rosto. Por alguns segundos, nossos olhares se cruzaram e o tempo parou. Toquei o vidro do carro com as pontas dos dedos, um gesto instintivo, como se precisasse tocá-lo para ter certeza de que era real. O sinal abriu, ele seguiu seu destino, mas o olhar ficou tatuado na minha memória.
Retornei àquela avenida inúmeras vezes, buscando reencontrá-lo. Sem respostas. Ficou uma lacuna, uma porta aberta que eu nunca conseguia fechar ou decifrar. Anos se passaram, mas a cena voltava a cada sinal vermelho. Uma obsessão que ocultei do meu marido até hoje. Quem era aquele homem atrás do capacete? Às vezes eu acordava no meio da noite, sentindo a culpa de quem trai a própria família apenas por lembrar de um estranho.
Precisei libertar-me. Com a ajuda de uma antiga patroa, em uma busca que durou meses, o encontro foi marcado.
O café estava inundado por um sol delicado quando ele entrou. Levantei-me, sentindo as pernas fracas. Fui direta ao assunto, contando sobre aquele dia no sinal. Ele me ouviu com uma atenção perturbadora e, então, disparou: — Você é casada? Seu marido sabe que você está aqui hoje?
Fiquei sem reação. Ele continuou: — Não esperava que um olhar fosse te perseguir por tantos anos. O que você quer de mim? — Eu só queria entender aquele dia — respondi, quase sem voz. — Aquele dia? Eu apenas te olhei. Não espere muito das pessoas só por um olhar.
Humilhada, levantei-me para sair. Mas, ao passar por ele, senti sua mão segurar meu braço de forma sutil. — Não vá. Fique, por favor. Eu preciso lhe dizer algo.
Voltamos a nos sentar. A voz dele agora era outra. — Pode parecer loucura, mas um dos filhos que você carrega tem a alma de uma criança do seu passado. Quando ela completar três anos, dirá algo que desbloqueará todas as suas dúvidas. Estamos presos um ao outro há muito tempo. Em outra vida, eu tirei a sua vida. Cravei uma faca em seu coração e te vi desfalecer em meus braços. Eu não tirei apenas a sua vida, tirei a do nosso filho.
O ar sumiu dos meus pulmões. Ele continuou, implacável: — Naquele sinal, eu fiz acontecer. Usei magia para estar nos seus sonhos. Todas as noites eu chamava seu nome: Angelina. Eu sou um xamã. Mas não precisa acreditar em mim agora; você terá certeza daqui a três anos. Agora, encerramos nosso elo aqui. Não me procure mais.
Saí do café cambaleando, atingida por um balde de água gelada. Voltei para casa, mas não era mais a mesma. Sentei-me à mesa da cozinha para preparar o almoço, mas meus olhos estavam perdidos no vazio.
Ela não sabia, mas enquanto ela se afastava, ele a observava. Ele a esperou naquela avenida por anos. Ver sua felicidade era, para ele, devastador — o peso eterno por sua inconsequência no passado. O xamã finalmente a deixou ir, carregando sozinho a dor de quem ama um fantasma.
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